Por que a Bíblia Evangélica e Católica Têm Livros Diferentes?

Por que a Bíblia Evangélica e Católica Têm Livros Diferentes?
Para quem folheia as páginas sagradas do cristianismo, um detalhe chama frequentemente a atenção: enquanto a Bíblia adotada pela Igreja Católica contém 73 livros, a versão utilizada pela maioria das congregações evangélicas e protestantes reúne 66 livros. Essa diferença quantitativa, longe de ser um mero capricho moderno, reflete séculos de história, debates teológicos profundos e decisões que moldaram o pensamento religioso ocidental.
A disparidade não se encontra nos evangelhos nem nas epístolas que retratam a vida de Jesus e o início do cristianismo. De facto, o Novo Testamento é exatamente idêntico em ambas as tradições, composto por 27 escritos unanimemente aceites. As discrepâncias concentram-se inteiramente no Antigo Testamento, o conjunto de textos que narra a criação, a história do povo hebreu e as profecias que antecederam a era cristã.
A Origem dos Cânones Antigos: Hebraico versus Grego
Para compreender a raiz dessa distinção, é indispensável recuar à Antiguidade. Na época de Jesus Cristo, as comunidades judaicas espalhadas pelo Mediterrâneo utilizavam versões distintas das suas escrituras sagradas:
- A Septuaginta (Tradução dos Setenta): Versão em língua grega produzida em Alexandria, no Egito, amplamente utilizada pelos judeus da diáspora e pelos primeiros cristãos de língua grega. Esta compilação continha livros que não constavam nas cópias estritamente hebraicas.
- O Cânone Hebraico (Tanakh): A compilação conservada pelos rabinos na Judeia, restrita aos textos redigidos predominantemente em hebraico e aramaico antigos.
A Igreja cristã dos primeiros séculos adotou com naturalidade a Septuaginta grega como base de leitura e liturgia. Contudo, ao longo dos séculos, eruditos como Jerónimo de Estridão, que traduziu a Bíblia para o latim (a famosa Vulgata), já apontavam que determinados textos presentes na tradição grega não existiam nos manuscritos hebraicos originais.
Os Livros Deuterocanónicos e a Reforma Protestante
Os livros em questão são Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Sirácida), Baruc, e os Primeiro e Segundo Livros dos Macabeus, além de secções adicionais nos livros de Ester e Daniel. No meio católico, estes textos são designados por deuterocanónicos (admitidos no cânone num segundo momento). No meio protestante, são conhecidos como apócrifos, termo que alude a escritos com valor histórico ou moral, mas sem autoridade doutrinal inspirada.
No século XVI, durante o movimento da Reforma Protestante, Martinho Lutero e outros líderes reformadores decidiram alinhar o Antigo Testamento cristão diretamente com o cânone hebraico tradicional. Lutero considerava que esses escritos, embora úteis para leitura instrutiva, não deveriam fundamentar dogmas de fé. Em contrapartida, a Igreja Católica, no Concílio de Trento (1546), reafirmou oficialmente a inspiração divina dos 73 livros como dogma intocável da sua tradição litúrgica.
“A distinção entre as versões bíblicas ensina-nos sobre os caminhos históricos da transmissão textual e a diversidade na interpretação da fé ao longo dos milénios.”
Relevância Cultural e Diálogo Atual
Hoje em dia, a compreensão destas nuances históricas promove o diálogo e o respeito mútuo entre diferentes denominações cristãs. Longe de representar uma oposição antagónica sobre o núcleo da mensagem de fé, o estudo do cânone bíblico oferece uma janela valiosa para a história literária, a preservação de manuscritos antigos e a riqueza cultural que atravessou milénios até chegar aos dias de hoje.




